quarta-feira, 27 de março de 2013

O OLHAR SOBRE O PASSADO

 O olhar se perdia pela janela ampla. Longe se via um grupo de homens em movimento, trabalhavam em uma construção. Algo um tanto difícil de entender o que seria erguido lá em Champ de Mars.
Estava em frente à vidraça embaçada em contemplativa observação. Ouvia a música vinda do outro lado rua. Um cheiro agradável de comida sendo preparada no restaurante de Ciorán Eminescu, um imigrante húngaro, de onde também partia aquela sonoridade que, na forma de música melancólica ora lamentosa, ora levemente efusiva.
Ao redor o ambiente era elegantemente mobiliado, e com sutil requinte de bom gosto. Tudo que um quarto de dormir deveria ter. A cama com cabeceira de ferro em arco trazia nos quatro cantos hastes para um toldo. Uma confortável poltrona de leitura estava disposta próxima da janela.
Uma escrivaninha cheia de papéis e livros. Muitos deles com anotações nas bordas das páginas feitas com lápis de carvão fino. Um tinteiro e uma pena elegante de origem Persa. Havia uma penteadeira, sobre a qual algumas maquilagens estavam dispostas diametralmente harmônicas.  
Isso revelava uma tendência à métrica, ao cuidado de estar tudo na mais perfeita ordem. As paredes eram revestidas com um tecido fino com listras suaves em tom rosado. Ao longo das paredes, um rebordo de madeira esculpida à mão dava um detalhe que dividia as paredes em dois segmentos. Na parte baixa o tom era mais escuro que o de cima. Esta cinta ornamental tinha objetivo de destacar três quadros de óleo sobre tela dispostos de modo angular.
Todos assinados com o rabisco em tom pastel: MannaM. Eram obras únicas, dignas de exposição em museu, retratavam paisagens impressionistas requintadas. Mãos de artista de qualidade haviam produzido aquelas imagens lúgubres e intensas, porém docemente pigmentadas. O cheiro de incenso de rosas se misturava com o aroma da comida, em contraponto, mas sem interferir na percepção distinta de amba
Alguns frascos de boticário com essências de Jasmine e Parfum D’Fleur estavam sobre a penteadeira, ao lado da almofada que assentava a escova de prata.
O espelho de um fino cristal cintilava sobre a penteadeira permitindo a sensação de que o espaço do ambiente era ainda maior. Um baú com cadeado ajustado aos pés da cama alta tinha um almofadado sobre a tampa que servia como assento para vestir os calçados. Ao fundo, na parede oposta à janela, bem ao lado da porta, estava uma grande móvel de mogno sueco com portas.
Um armário que se confundia com o revestimento, fazendo-o parecer que nem existia. Nele eram guardadas muitas das roupas de uso diário e as de festa. Tudo muito limpo e organizado, o que deixava claro para quem observasse que era regularmente limpo e arrumado, certamente por uma aia ou arrumadeira.
 Mantinha-se imóvel em frente à janela. Sentia uma sensação gratificante de prazer e liberdade, mesmo com um uma lágrima descendo pelo rosto. Havia um sorriso leve e discreto na expressão que não era refletida na opacidade das vidraças.
A dor da perda já nem era tão forte agora. Permanecia em silenciosa contemplação dos homens na construção ao longe.
Nem as fortes batidas na porta e os chamados repetidos, em tom angustiante quebraram o estado absorto:
- Anne Marie... Anne Marie...
Até que um estrondo partiu a porta e dois homens entraram no quarto, acompanhados de madame Claire.
- Oh, meu Deus! Oh, meu Deus. – foram as únicas palavras que madame Claire pode pronunciar.
O inspetor de polícia de Paris aproximou-se da cama onde o corpo jazia com os olhos entreabertos.
Tinha lágrimas secas em seu rosto. Na mão direita segurava uma carta, onde letras borradas davam pistas de que lágrimas deveriam ter caído sobre o papel escrito com tinta bleu dês campagne, artigo fino e caro. Raro para ser mais exato.
Na mesa de cabeceira, entre alguns bibelots biscuit e uma candeia de bronze, um copo vazio, um frasco de láudano e outro de absinto. Farelos de torrão de açúcar também foram percebidos. O inspetor aproximou-se da jovem e cheirou-lhe a boca, que tinha um leve tom arroxeado.
- Suicídio. Envenenou-se com essa mistura letal. Mas morreu dormindo. Porque faria tal coisa essa belíssima mulher? Que motivo teria? Se ao menos a carta estivesse escrita em Frances?  Bem, teremos que levar a um linguista.
- Ninguém mexa em nada, antes que o legista faça seu trabalho.
O inspetor parou diante da janela, sem perceber sua presença, ela nem se importou com isso.
- O que esse tal de Eiffel vai fazer com essa cidade? Aqueles homens nunca vão conseguir erguer aquela quantidade de metal. Bem, isso não é da minha conta. – disse isso e se retirou do quarto onde o corpo sem vida de Anne Marie jazia sobre a cama.
...£...
Ao ouvir o despertador levantou em sobressalto. Estava suada ao redor do pescoço. O pulso estava um tanto acelerado. Eram mais de nove horas da manhã. Ficou aliviada por ter acordado.
Pegou imediatamente o telefone e discou.
Alguns segundos e, a voz do outro lado disse:
- Consultório do Dr. Wildner, pois não.
- Laura, é Anne Marie. Preciso falar urgente com o Wildner. Ainda hoje, por favor. Tive aquele sonho outra vez, aliás, pior do que das outras vezes. Isso não é pesadelo; é autorregressão.

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